Carnaval e Castro Alves
"O
carnaval tem sua beleza e prodígios, como os apelos da alegria e o grande espetáculo
vivo e, por vezes, incrível.
Multidão, solitários, distraídos, gente, gente em
descontração e exaltação dos sentidos. A música favorecendo o ritmo, o
movimento, o corpo, as sensações e o instante vivido.
Ah, se tudo fosse isso?
Mas
não saem apenas pessoas, trios, blocos de folia para o carnaval de rua. A vergonha
anda por lá nua entre os camarotes resplandecentes e no abuso de cordas e vícios.
E mesmo assim, muitos não a enxergam, pois a vestiram prodigiosamente com o véu da fantasia, sonho de folia criado só para alguns e
assumido pela maioria.
Nesse momento, toda sensatez que percorria as ruas e
vielas da Bahia naufraga calamitosamente. Numa
terra de belos faróis, o da consciência, perde a luz à noite e escurece o dia.
Não importa o que se diga, a dor não se resigna nos seres sensíveis... Ao olharmos com bastante atenção, a vergonha está lá em sua crueza reverenciada de silêncio, enquanto o som dos trios nas alturas, explodindo.
Ó Castro Alves! Em que mares cansados em uma esplêndida baía os braços escravos culminaram na vergonha de toda uma nação?
Em que terra há uma alegria contagiosa e ancestral, repartida em razões e em sentimentos?
Em que ares podemos olhar nos olhos da indiferença e nos calarmos, dançando o último sucesso do carnaval?
Em que fogo foram incineradas as promessas de liberdade e progresso?
Douto poeta, será ingratidão falar?
Vejamos
as esquinas da Bahia, são maviosas e estreitas. Uma pista, Alves, é mesma terra
brejeira e o mesmo povo de antes.
Com esses apelos e palavras, olhai detidamente o pelourinho de hoje. Observai ainda mais esta cordas quem as segura e a quem elas querem separar...
E não é só isso, douto poeta! Ah um estranho minotauro que ronda esta terra, cada vez mais dentro do labirinto do cotidiano, e completamente livre no carnaval.
Ai de nós|"
Carlos França

